O lugar era medonho. Circundado por trilhos de trem que ligam bairros da capital à grande São Paulo. Cantinho que nem traficante quer morar. Crianças brincavam entre barracos de madeira, água fétida e ruas de terra. Mas algo ali se destacava além dos antigos prédios da família Matarazzo. O que era, só percebi depois de algum tempo.
Desço dos antigos silos, agora bombardeados pelo tempo. Ladeira abaixo pelas escadas, do meu lado direito, um grande fosso assustador. À esquerda paredes davam vista aos trilhos e ao mar de finas lâminas de madeira em forma de barracos. Em todo espaço o cheiro de cobre derretido para reciclagem.
Volto arrebentado de degraus e pavor. Um escorregão e lá se vão os desejos, as vontades e os amores. Na saída, o bar do Edmilson. Cerveja de graça e pinga para o almofadinha (eu) que enfrentou a altura dos silos. Já em solo - seguro e um tanto bêbado, antes do forró - é que ouço uma frase que marcará minha vida: "vocês vem aqui discutir o limite da pobreza. Tem que discutir, antes, o limite da ganância".
O que os olhos mostravam, a alma não via.

Um comentário:
Pois é....só que entrou para fazer algum trabalho na favela para não ter medo de nossas crianças de lá.....
Cristiane
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